“Sempre foi assim”: Moradores de MG veem com naturalidade chuvas que isolam cidades e danificam estradas

Almenara (MG) – “Sempre foi assim, não sei porque o povo assusta com as chuvas”. A fala do agricultor José Alves, 58, resume o sentimento de muitos moradores da região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, diante dos alagamentos e estradas destruídas que voltaram a isolar comunidades nesta semana. O período entre outubro e dezembro é historicamente marcado por precipitações intensas, conhecido localmente como “tempo das águas”. Apesar da familiaridade, a situação expõe a falta de soluções permanentes para o isolamento de cidades inteiras.

A estrada que liga Almenara a Pedra Azul, por exemplo, está praticamente intransitável. “É estrada de chão, e agora tem que deixar o tempo das chuvas passar para consertar”, explica Maria Santos, 47, que depende do trajeto para levar sua produção à cidade vizinha. O trecho, vital para o escoamento agrícola e o transporte de moradores, sofre com a erosão e os buracos a cada temporada chuvosa.

Há décadas os municípios da região convivem com esse ciclo: as chuvas chegam, as vias ficam ruins, o conserto é feito de forma emergencial quando o tempo abre, e no ano seguinte a situação se repete. Para especialistas, a naturalização do problema esconde uma demanda por investimento em infraestrutura resiliente.

“É verdade que estamos em um período de maior precipitação, mas a vulnerabilidade das estradas e a falta de drenagem adequada agravam os danos. É preciso planejamento que vá além da ‘contenção de estrago’”, afirma o geógrafo Carlos Mendonça, professor da UFMG. Ele ressalta que, com as mudanças climáticas, os eventos extremos tendem a se intensificar, exigindo ações preventivas.

Enquanto isso, a população segue na rotina de paciência. “A gente sabe que é assim. Quando para de chover, eles vêm maquinar e ajeitam. Mas são meses difíceis, principalmente pra quem precisa de remédio ou tem compromisso médico”, relata dona Francisca, 62, moradora de uma comunidade rural.

A Defesa Civil municipal tem realizado monitoramento e orientado os moradores sobre os riscos de deslizamentos e alagamentos. A prefeitura de Almenara informou que os reparos nas estradas só podem ser efetivos com a diminuição das chuvas, mas que há um plano de manutenção para o período de janeiro a março.

Para muitos, no entanto, a sensação é de que a história continuará se repetindo. “Todo ano é a mesma coisa. A gente se vira, mas seria bom não precisar contar só com a sorte e a boa vontade depois que a chuva passar”, reflete José Alves.

Enquanto o “tempo das águas” seguir seu curso, resta à população a esperança de que, desta vez, a reconstrução seja mais duradoura.



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