ANAGÉ, BA – O som de sanfonas, violas e pandeiros tomou conta das ruas de Anagé neste início de janeiro, durante a tradicional Festa de Reis, que mantém viva uma das mais autênticas expressões da cultura popular do sertão baiano. A celebração, que encerra o ciclo natalino, reuniu centenas de pessoas em uma demonstração de fé, música e hospitalidade.
Conhecida localmente como Folia de Reis ou Reisado, a festa tem como ponto alto o dia 6 de janeiro, Dia de Reis, data que rememora a visita dos Três Reis Magos ao menino Jesus. Em Anagé, porém, a celebração vai além do aspecto religioso, transformando-se em um verdadeiro patrimônio imaterial da cidade.
Durante vários dias, grupos de foliões, vestidos com trajes coloridos, chapéus enfeitados e portando a bandeira do Divino Espírito Santo, percorreram a zona rural e os bairros da cidade. Liderados pelo "Mestre" e pelo "Contramestre", eles visitaram casas, fazendas e estabelecimentos comerciais, entoando cantigas de marcha, loas e versos que narram a saga dos Reis Magos e transmitem mensagens de benção e paz.
Em cada parada, eram recebidos com comida típica – como café, bolo de puba, pamonha e licor – e muita alegria. "É uma tradição que a gente recebe dos nossos avós. A Folia traz a bênção para o nosso lar e reforça os laços com os vizinhos. É cultura viva do nosso povo", conta Maria do Carmo, 67 anos, que há décadas recebe os grupos em sua casa no Povoado de Lagoa Preta.
O ápice da festa aconteceu na noite do dia 6, com a chegada simbólica dos Reis ao presépio, montado na Praça da Matriz. O evento reuniu os diferentes grupos folclóricos do município e contou com a participação de moradores e visitantes. Após a entrega simbólica dos presentes (ouro, incenso e mirra), teve início um arraial com forró pé-de-serra, barracas de comidas típicas e a tão esperada queima de fogos.
"É uma das festas mais importantes do nosso calendário cultural. Ela fala da nossa identidade, da nossa fé simples e da capacidade de acolher. A Prefeitura, junto com as associações culturais, trabalha para preservar essa tradição e passá-la para as novas gerações", afirmou o Secretário Municipal de Cultura, João Pedro Santos.
Apesar das mudanças do tempo, a Festa de Reis em Anagé mantém sua essência. Jovens músicos e cantores têm se juntado aos mais velhos, aprendendo as toadas e os rituais. "No começo, eu achava antigo. Hoje, vejo a beleza e a importância. Estou aprendendo a tocar viola para um dia poder liderar uma Folia", disse Lucas, de 16 anos, integrante de um dos grupos juvenis.
A festa, que mistura devoção católica com elementos da cultura popular brasileira, é um testemunho da riqueza do interior baiano. Mais do que uma comemoração, é um fio condutor que tece a história da comunidade de Anagé, celebrando suas raízes e sua esperança num novo ano que se inicia.

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