Em meio ao calor do verão, Rubim se veste de cores, ritmo e história. O som dos tambores não anuncia apenas uma festa; é o pulsar de uma tradição secular que ressoa pelas ruas da cidade. O Boi de Janeiro, perpetuado pelo grupo folclórico Coquis, é muito mais que uma manifestação cultural — é memória coletiva em movimento, uma expressão visceral da identidade de um povo.
A cada mês de janeiro, o grupo, formado por famílias e entusiastas da cultura popular, revive uma narrativa que mistura fé, folclore e celebração comunitária. As roupas coloridas, as máscaras expressivas, o boi estilizado e o ritmo contagiante criam um espetáculo que transcende o entretenimento. Trata-se de um ato de resistência cultural.
“É a nossa história cantada e dançada”, define o mestre folclorista Sebastião Mendes, 78 anos, um dos guardiões da tradição. “O Boi de Janeiro chegou aqui com nossos avós, misturou influências indígenas, africanas e portuguesas, e nós, dos Coquis, nos tornamos seus cuidadores”.
O que chama a atenção não é apenas a beleza plástica ou a energia da apresentação, mas a sua capacidade de unir gerações. Crianças de cinco anos dançam ao lado de octogenários que há décadas carregam a bandeira da tradição. Nas oficinas realizadas durante o ano, os mais velhos ensinam os passos, os toques dos tambores, a confecção das roupas e adereços aos mais novos.
Maria Clara, 12 anos, integra o grupo há quatro anos. “Minha bisavó dançou, minha avó dançou, minha mãe dançou. Agora é minha vez. Sinto que estou carregando algo muito importante”, conta, enquanto ajusta o vestido bordado antes da apresentação.
Para João Pedro, 45 anos, coordenador dos Coquis, a manutenção da tradição é um ato de amor à comunidade. “Em um mundo tão globalizado, onde tudo se homogeniza, manter o Boi de Janeiro vivo é afirmar quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir, sem apagar nossas raízes”.
O Boi de Janeiro tem origem nas festas do ciclo natalino, geralmente associado ao Dia de Reis, e se espalhou por várias regiões do Brasil, assumindo características locais. Em Rubim, através dos Coquis, ganhou uma narrativa própria, com personagens fixos, músicas compostas na comunidade e uma coreografia que conta uma história de luta, fé e celebração.
A apresentação simboliza o ciclo da vida, a luta entre o bem e o mal, e a vitória da comunidade unida. Não por acaso, a plateia não é apenas espectadora — é parte integrante. Muitos acompanham os cortejos pelas ruas, respondem aos cantos e se emocionam com a representação.
“É quando vejo o brilho nos olhos das crianças e a emoção dos mais velhos que entendo o verdadeiro significado do que fazemos”, reflete Dona Geralda, 82 anos, a matriarca do grupo. “Não estamos apenas repetindo uma dança. Estamos passando adiante um sentimento de pertencimento”.
O Boi de Janeiro dos Coquis se apresenta durante todo o mês de janeiro em diversos pontos da cidade. A programação é divulgada pela Prefeitura de Rubim e pelo perfil do grupo nas redes sociais.

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